“UM ESTUDO SOBRE O CRENTE E SUAS ENFERMIDADES!” Capítulo 02

“UM ESTUDO SOBRE O CRENTE E SUAS ENFERMIDADES!” Capítulo 02

“UM ESTUDO SOBRE O CRENTE E SUAS ENFERMIDADES”

                                         CAPITULO 02

( Tese apresentada no Curso de Bacharel em Teologia – Fatefé –SP – Nov 2017- Racchel Vieira Motta)                  

 

1. 5 Classificação das enfermidades

Conforme discutimos anteriormente, Deus não criou o homem para enfermar e morrer, mas a enfermidade e a morte foram consequências diretas do rompimento da relação intima entre Deus e a humanidade, representada em Adão. Assim como o homem é um ser trino, foram afetadas e sujeitas à enfermar, as suas três áreas: corpo, alma e espírito.

Com relação ao espírito temos as desordens espirituais que abalam sua estrutura e são: a opressão e a possessão maligna.  Relativo à alma temos as patologias da psique ou os distúrbios comportamentais e as doenças psicossomáticas. Quanto ao físico temos as doenças orgânicas que atacam nossos órgãos, membros, células, etc., ou seja, atacam nossa estrutura física.

1.5.1 Enfermidades do espírito

Como vimos, elas podem ser a opressão e a possessão malignas.

As opressões malignas são ações causadas por Satanás e seus anjos caídos, que agem sobre o homem, lançando em sua mente ideias e pensamentos que causam mal e transtornos que levam dor ao próprio homem como também ao seu próximo. Estes agentes malignos agem externamente ao corpo do homem, importunando mentalmente a pessoa com sugestões destruidoras e com tentações para que ela possa ser levada a cometer alguma transgressão aos valores divinos inculcados no seu espírito e alma. Sugestões malignas como: dar vazão ao seu ódio, não liberar perdão, perversão e abrasamento sexual doentio, sentimento de autossuficiência que impede a pessoa de buscar ou reconhecer a Deus, ímpetos de praticar homicídios, entre outras práticas pecaminosas.

Nas possessões malignas os agentes do mal entram no corpo da pessoa subjugando-a e dominam a sua mente, manipulando assim toda a estrutura física e suas emoções e vontades. Estes agentes malignos podem se manifestar, levando a pessoa a cair, espumar, falar com outra voz, a ter uma força anormal etc., porque eles passam a ter o domínio de todas as faculdades mentais e físicas da pessoa possessa. Esclarecemos que também pode haver possessão onde o agente maligno não se manifesta das formas anteriores, mas somente em atitudes reprováveis e malignas, causando invariavelmente o mal e a dor a outrem.

As Escrituras Sagradas nos dizem que o nosso inimigo, Satanás, está constantemente ao nosso derredor (cf I Pedro 5:8), a nos espreitar, por isso ele conhece muitas áreas da nossa alma e também nossas fraquezas, pautadas no nosso temperamento e nas nossas atitudes. Sendo assim, nas opressões malignas ele faz um ataque indireto a partir de um problema que estamos passando e que está fragilizando nosso caráter e nossa fé. Satanás usa então destes ataques indiretos para intensificar nossa fragilidade e minar nossa vontade de buscar a solução da forma adequada e eficaz orientada por Deus. Satanás nos atinge porque encontra em nosso ser alguma falha ou alguma área vulnerável, a que chamamos de “brecha”, por onde ele penetra com o propósito de nos fazer sucumbir e cair em suas armadilhas e engodos.

Pessoas que tiveram laços com o ocultismo ou que mergulharam fundo em práticas sexuais ilícitas estão mais suscetíveis à opressão ou a possessão maligna, porque através do uso indevido do corpo, vivendo práticas pecaminosas, e do espírito, buscando relação com as trevas através do ocultismo e práticas semelhantes, oferecem pontos de abertura da alma ou pontos de contato para o diabo as oprimir e escravizar.

Em nossas experiências, temos visto pessoas profundamente escravizadas pelo diabo na sua sexualidade, ás vezes presas terrivelmente a parceiros sexuais do seu passado ou até vítimas de fortes compulsões para a perversão sexual. Isso se deve a legalidades dadas ao inimigo que ainda não foram devidamente canceladas por meio da oração. (EMERICH,2013,p.139)

1.5.2  Enfermidades da alma ou da psique

As doenças da psique são distúrbios mentais que levam a pessoa a desordens nos pensamentos e comportamento e a desiquilíbrios nos seus sentimentos e emoções.

Segundo James C. Coleman, professor de Psicologia da Universidade da Califórnia, é preciso que se considere em cada distúrbio mental, a interação de outros fatores sociais e biológicos, como a hereditariedade, por exemplo, que possam ser desencadeadores de transtornos emocionais e que se exteriorizam na conduta do indivíduo. (COLEMAN,1993, apud EMERICH,2013,p82).

Entre essas patologias encontramos:

Esquizofrenia: o indivíduo se vê afetado nas suas relações com o mundo, perdendo o sentido da realidade e não distinguindo o real do imaginário.

Histeria: o indivíduo apresenta padrão comportamental neurótico para fugir de alguma responsabilidade ou por não querer enfrentar uma situação traumática.

Paranoia: o indivíduo sofre de um sentimento de desconfiança e suspeita de modo altamente exagerado e injustificado, podendo chegar a níveis de ser incapaz de desfrutar de um convívio social sadio.

Obsessão: nas reações obsessivo-compulsivas, hoje rotuladas de “bipolaridade”, a pessoa reconhece a irracionalidade do seu comportamento, entretanto ela parece ser obrigada a pensar e fazer algo que não deseja.

Distúrbios de temperamento: são atitudes que levam a um desvio comportamental, de modo desequilibrado.

Tim La Haye (1991) afirma que já nascemos com um temperamento determinado pela carga de uma herança genética. Fato é que todos nós temos um temperamento. La Haye continua nos dizendo que existem quatro tipos principais de temperamentos, a saber: sanguíneo, vive sendo dirigido pelas emoções e impulsos momentâneos; colérico, vive sendo dirigido por sua vontade, sendo suscetível a agressividade; melancólico, é introvertido, muito sentimental e se fere emocionalmente com facilidade; fleumático, é extremamente pacifista e introvertido, conservador ao extremo, mas conciliador e conselheiro.

Precisamos entender qual destas características predominam em nós, para que possamos nos compreender melhor e termos entendimento das nossas fraquezas de caráter, que nos levam a reações da alma e que podem ser vistas como enfermidades psicológicas. Existem áreas negativas e pecaminosas inerentes ao temperamento que precisam ser tratadas por especialistas da área de Psicologia.

Traumas emocionais: são as feridas na alma (geralmente nas emoções e sentimentos) e que afetam diretamente nosso psicológico. São emoções abaladas por situações ruins e trágicas que nos acontecem e que podem nos levar a sentir tristeza profunda, ódio, mágoa, síndrome de pânico, desejo de vingança e dependendo da intensidade, chegar até a uma depressão profunda, com desejos de morrer e tendência suicida.

Em nossos dias temos visto inúmeras pessoas que têm sofrido de depressão ou de síndrome de pânico, que devido ao grande número de incidências, estas doenças têm sido chamadas de “doença do século”. São as doenças da vida moderna competitiva, que exige de nós como profissionais e como seres humanos de tal modo que nos deixa sem tempo para o lazer ou para buscarmos soluções para as angústias da alma. A depressão gera pessimismo, desalento, tristeza, apatia e ausência de ânimo. Encontramos na Bíblia Sagrada servos, como Elias, que enfrentou a depressão depois de uma terrível batalha espiritual e emocional (cf I Reis 19:4,9-10). Assim também nós servos podemos estar sujeitos à depressão porque não somos super-homens, nem infalíveis e ao passarmos por momentos angustiantes demais, mesmo sendo usados por Deus e fiéis, ficamos fragilizados e vulneráveis a estas enfermidades.

Lendo a narrativa deste grande homem usado por Deus, Elias, vemos quantas vitórias e realizações ele obteve. Mas, nem mesmo a lembranças dos milagres que Deus realizara através dele, o impediram de ir para uma caverna para se esconder e querer morrer. Sentimentos de autocomiseração, solidão, desânimo e até incerteza de quem era Deus na vida dele, vieram à tona em suas reflexões. O profeta se viu frustrado, abatido e deprimido. Mas Deus não tinha se esquecido dele, como não se esquece de nós.

Podemos até passar apuros semelhantes aos de Elias, mas Deus vai nos tirar da caverna da alma, se o buscarmos com todo o nosso coração.

1.5.3  Enfermidades do corpo ou físicas

Quanto às doenças físicas, são todas aquelas oriundas da má formação dos órgãos, das células; são os traumas físicos ou aquelas enfermidades causadas por hábitos não saudáveis, desregrados e errôneos (beber, fumar e se drogar), como também as advindas pela própria degeneração das células do nosso corpo à medida que envelhecemos. Classificam-se aqui também as doenças psicossomáticas, que são as que se manifestam no físico em decorrência de desajustes no sistema emocional.

Estas enfermidades psicossomáticas podem vir em forma de cefaleia, enjoo, gastrites, taquicardias, etc. Estes abalos emocionais, que podem nos levar a um estresse e a uma ansiedade extrema, também se evidenciam quando deixamos a amargura e rancor e a falta de perdão nos dominar. A Bíblia se refere a isso como “raiz de amargura” (cf Hebreus 12:5) nos prendendo a um fato passado e que nos impede de avançar na nossa caminhada terrena de modo equilibrado. A cura para esse mal vem ao perdoarmos a quem nos causou o mal ou a quem nós atribuímos a causa da nossa amargura ou rancor. O perdão ao próximo e a reconciliação com Deus são remédios divinos para este mal.

Além dos tipos elencados aqui, temos enfermidades adquiridas por desleixo com a saúde, por fatalidades e acidentes, por questões genéticas e por pecados ou transgressões cometidas que não foram tratadas devidamente ou não foram abandonadas em suas práticas.

Neste quesito de práticas não tratadas, estamos nos referindo a atitudes pecaminosas que não foram reconhecidas, confessadas e abandonadas, tornando assim a pessoa vulnerável a enfermidades por estar sem a benção de Deus em sua vida. Na Bíblia Sagrada (cf Deuteronômio 28:15-22), vemos que sem a proteção de Deus ficamos sujeitos a enfermidades. A cura delas vem ao confessarmos e abandonarmos a prática que está nos enfermando (cf Provérbios 28:13).

O certo é que vivemos suscetíveis a estas debilidades patológicas, mas sabemos que temos meios para controlá-las ou evitá-las ou buscarmos a cura para elas. Quer seja através de fármacos, ou de tratamentos médicos ou procedimentos cirúrgicos podemos tratar nosso corpo físico; através de terapias psicológicas associadas a fármacos ou não, tratamos a psique e através de expulsão do espírito maligno e de confissão e arrependimento podemos libertar os oprimidos do diabo. Devemos, contudo, buscar pessoas investidas da devida autoridade e legalidade em cada uma dessas áreas, para alcançarmos a cura esperada.

1.6  Crente em Cristo e fiel pode enfermar?

É muito comum ouvirmos alguns crentes afirmarem que o genuíno cristão não pode ficar ou permanecer doente e não deve aceitar esta condição porque Jesus Cristo, nosso Salvador, Filho de Deus, levou na cruz todas as nossas enfermidades. Então se o crente enfermar é porque está em pecado ou é fraco na fé.

Com relação a esta pergunta, temos visto o mundo cristão estar dividido em duas grandes linhas de pensamento, uma pentecostal e outra conservadora, com seguidores tanto de uma como da outra linha. É exatamente sobre as premissas e postulados destas correntes que estaremos explorando mais detalhadamente nos dois próximos capítulos.

 

2  DISCUSSÃO SOBRE A ESCOLA DE PENSAMENTO PENTECOSTAL :  CRENTE FICA DOENTE SE ELE NÃO TEM FÉ

2.1 Linha de pensamento pentecostal

Esta linha de pensamento prega que o crente permanece doente se ele não tem fé suficiente para determinar sua cura e reivindica-la diante de Deus, uma vez que o próprio Deus já liberou toda a cura para qualquer enfermidade que um crente fiel possa sofrer. Na cruz, Jesus Cristo, filho de Deus, morreu para fazer a vontade do Pai, Deus, e assim levou todas as nossas enfermidades pagando por nós o que poderíamos sofrer. Logo só precisamos tomar posse desta verdade e crer que isso já nos foi presenteado, seguindo o raciocínio desta corrente teológica.

2.2 Textos bíblicos de embasamento desta corrente teológica

Vamos analisar um pouco mais textos da Bíblia Sagrada com os quais os crentes que apoiam esta linha, chamados pentecostais, se embasam para afirmar que “crente fiel não enferma”. Assim se o crente fica doente, ou é porque ele está em pecado ou porque ele não tem uma fé suficiente e firme para, ao exercê-la, garantir sua cura.

O primeiro texto que eles levantam está em Isaías 53: 4 que diz: “Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputamos por aflito, ferido de Deus e oprimido.” Qual o significado de “enfermidade” neste texto? No hebraico, a palavra usada é “choliy”, que significa “doença”. Seriam então contempladas as doenças físicas no texto? Cremos que certamente a obra de Jesus Cristo na cruz pode alcançar o nosso físico, trazendo cura, porém o contexto parece ser mais do ponto de vista espiritual do que físico. Se analisarmos o versículo seguinte em Isaías 53:5 encontramos: ”Mas ele foi ferido pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos trouxe a paz estava sobre seus ele e pelas suas pisaduras fomos sarados.” 

Podemos ver as palavras: transgressão, iniquidade e sarado, onde as nossas transgressões e iniquidades se referem às nossas atitudes pecaminosas que nos acorrentavam. Transgredimos as ordenanças de Deus porque pecamos. Cometemos iniquidades que são pecados que nos distanciam de Deus. Então ele (Jesus Cristo) precisou ser transpassado e moído para que as correntes que nos prendiam ao pecado fossem quebradas e para que nós voltássemos a nos aproximar de Deus. Quando somos sarados pelas suas pisaduras, o nível de cura é tão profundo que certamente se refere à cura do espirito e da alma, que agora pode não mais estar enferma por causa do pecado, se o abandonarmos.

Se Cristo não tivesse sido moído, nós ficaríamos eternamente com o espírito e alma acorrentados ao pecado e ao inimigo. Concordamos que a cura pode também se dar no corpo físico, mas não significa que foi para nos livrar de todas as doenças físicas, ainda aqui na terra, que Ele morreu. Até porque se assim fosse, as células voltariam a ter a saúde e vigor que tinham no Éden e não morreríamos no corpo. E isso não acontece. Com o sacrifício da cruz fomos sarados da doença do pecado no seu domínio sobre nosso espírito e alma, mas nosso corpo terá ainda de viver o envelhecimento até morrer.

Outro texto bíblico que esta linha usa para se justificar está em Êxodo 15:26, que deduz que o crente fiel e obediente não pode enfermar, e se assim está é porque se evidencia claramente que pecou e não se arrependeu. Parece-nos claro que esta passagem se refere especificamente a Israel, como uma promessa de Deus para eles que não morreriam das pragas acontecidas no Egito. Tanto que homens que foram fiéis a Deus, morreram não dessas pragas, mas sim de males naturais, a exemplo de Josué, Eliseu, etc.

Quantos homens de Deus fiéis sofreram e sofrem males físicos? Quantos instrumentos escolhidos pelo Espírito de Deus foram afligidos por enfermidades? Acusá-los de desobediência ou de vida em pecado porque tinham enfermidades é absurdo e arrogante.

Contrapondo a esta corrente, entendemos que no Novo Testamento a tônica é a salvação espiritual do homem pelo sacrifício da cruz. A força deste sacrifício está na libertação da alma do homem do domínio do mal e do seu espírito voltar a ter um relacionamento com seu Criador. A Bíblia registra como promessa divina que o corpo físico terá sua redenção no futuro ainda por vir. O corpo físico tornou-se mortal e está condenado á morte por causa da queda no Éden (cf Filipenses 3:21). A redenção desse corpo é futura, não no mundo presente (cf Romanos 8:23). Nesta redenção teremos um corpo glorificado, livre de doenças, mas isso só quando formos para a eternidade (cf I Tessalonicenses 4:17).

Mesmo em textos bíblicos como vemos em Lucas 5:17-26, Mateus 4:23,    Marcos 9:14-29 e em outros onde Jesus proveu a cura divina, seu objetivo maior era trazer salvação com o perdão dos pecados. Quando a igreja primitiva também opera vários milagres, como se vê em Atos 4:31 e 5:15-16, entendemos que o objetivo maior continuava a ser a pregação do evangelho da salvação em Cristo. A cura obtida pelos que foram alcançados pela pregação, não isentou os curados de eventualmente terem adoecido por outra enfermidade e certamente de terem morrido.

 

racchel_motta_foto

Racchel Vieira Motta

Share